Espelhos

 

", a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo." [Machado de Assis, O Espelho]


O Espelho [Tradução livre de Der Spiegel, Rainer Maria Rilke]

Espelhos: ainda não se descreveu sabiamente

o que vós sóis em essência.

Vós, como ruidosos buracos de peneira

preenchem os entre-espaços do tempo.


Vós, ainda esbanjadores dos salões vazios, -
Quando no crepúsculo, como longes florestas...
E o lustre atravessa a sua integridade,
como um cervo de dezesseis arestas

Às vezes sois todos pinturas
Algumas aparecem contra vós
Outras dispensastes com candura

Contudo, a mais bela permanece - até que
para além de sua face contida
invade o claro e dissolvido Narciso

 

The quivering, ardent sunlight showed him the lines of cruelty round the mouth as clearly as if he had been looking into a mirror after he had done some dreadful thing. (The Picture of Dorian Gray)





 
[Edvard Munch: Starry Night, 1893]

Einem Kinde im Dunkeln (Mascha Kaléko) 
Uma criança no escuro 

Gib mir deine kleine Hand. 
Dê-me sua pequena mão 
So, nun bist du nicht allein. 
E então não estás só.
Kind, du sollst nicht einsam sein 
Pequeno, não estejas solitário
Mit dem Schatten an der Wand. 
Com a sombra pelo vão.

Fällt der Abend auf die Welt, 
Cai a noite sobre o mundo, 
kühlt die Sonne langsam aus. 
o sol esfria devagar.
Schläft die Wolke hinterm Haus, 
Dormem as nuvens atrás da casa 
Nicken Blümlein auf dem Feld. 
As florzinhas assentem ao luar.

Sternlein glimmen langsam schon, 
Estrelinhas já ardem lentamente,
Wind nach unserm Fenster zielt. 
o vento aponta à janela 
Und der Abendengel spielt 
E o anjo da noite brinca
Mit dem blassen Mondballon. 
Com o pálido balão lunar

Leise, leise rauscht der Baum.... 
Quietas, quietas marulham as árvores.
Bäumlein sinkt. Nun ruhst du brav. 
Arvorezinhas afundam. Agora descansas direitinho.
Segne dich ein guter Schlaf, 
Abençoo-te um bom sono.
Segne dich ein schöner Traum!
Abençoo-te um lindo sonho!

[William Blake: when the morning stars sang together, 1804-1807]


[31/07/2022]
I've buried my tears
and then
they grew up
softened, teased, sweetened
as the lamb
between us

as I fall
and you watch
please don't keep
what you've found

these are secrets
you don't mean it
as you fall
to the ground




 Das ist meine klein Raum, wo kann ich gewiss sein. Nur mich, nur mich. Sich beruhigt.

Alles fühlt mich als Unordnung. Ich bin kleine Studentin, das Deutsch lernen will. Zurzeit nähe ich und kuche ich gern. Ich möchte zeichnen und schreiben oft, denn das macht mir gut. Aber jetzt ist alles bewölkt. 

Ich lese über Gestalten. Manchmal lese ich deutsche Gedichte, dann fühle ich als atmen. Ruhig atmen und wandern.

Fog, Voisins. Alfred Sisley

Heute's Gedichte:

Im hohen Himmelsraum dort zieht der Sterne Reigen,

der Bäume Wipfel neigen sich leise wie im Traum.
Die Blumen auf der Flur, sie sind so sonnenmüde,
ein heiliger Wonnefriede durchzittert die Natur.
Wenn manch ein Sturm – getost,
den Blumen feindlich wilde,
nun lächelt Nachtluft milde
und lispelt ihnen Trost.

(Rainer Maria Rilke)

Tentativa de tradução livre:

Nos altos espaços do céu, ali cirandam as estrelas,

Como em sonho, a copa da árvore se inclina serena.

As flores no campo, estão elas tão cansadas de sol,

uma beatitude percorre a natureza.

Quando muitas tempestades - ressoavam

às flores hostis e selvagens,

Agora a brisa noturna sorri amena

e lhes sopra serenidade.

Winternight, southwestsky. Oluf Kristian Alexander Høst


Tudo vira nuvem e não sei mais. Na língua estrangeira os sons grudam mais atentos. Blauen Blumen Beutel...

Sonhei que abria uma porta para morrer, depois de vários terem ido. E no sonho parecia claro: "morrer é como um reencontro de colegas. Releva-se tudo."






canta, ó deusa, a cólera de aquiles, o pelida,
(mortífera!

stimming

Pego meu dedo manchado de mênstruo: prova de que meu corpo movimenta-se sem que eu perceba. Sinto meu corpo em camadas finas, lívidas, que se mesclam em certas partes e deixam o vento passar em outras. Tão finas que algumas passam despercebidas ou esquecidas, como os movimentos que não percebo, as palavras brevemente pensadas que não sei mais dizer. Descubro uma lucidez com as letras de canções que não sabia que existia - só estavam elas esquecidas dentro de mim. Sinto essas camadas como  alguma imagem que um dia vi e depois foi se desfalecendo na memória, imagem que um dia talvez encontre junto a outras coisas que deslembrei.
Para onde vai aquilo que eu esqueço?